O filme “Esquadrão Suicida” foi, sem dúvida, um dos mais esperados do ano passado e fez bonito nas bilheterias do mundo inteiro.

A história de como um grupo de vilões acabou se convertendo em um esquadrão pronto para salvar o mundo parece um conto bastante improvável, até mesmo para os personagens.

Se você já assistiu o filme, existe um elemento da história que talvez você não tenha percebido, tão improvável quanto a missão dos “vilões-heróis”.

“Esquadrão Suicida” é uma ótima analogia à democracia!

Como? Para descobrir, nós temos que, primeiro, fazer uma pequena viagem no tempo…

 

EXT. AMÉRICA DO NORTE – DIA (1787)

Após 8 anos de luta, os colonos norte-americanos finalmente vencem a Guerra de Independência (1775-1783) contra o Grã-Bretanha. Com a paz, vem o grande desafio de fundar um novo país.

Uma nova Constituição foi redigida, em 1787. Para se tornar oficial, é necessário que ela seja aprovada pelos cidadãos das 13 ex-colônias (agora, estados).

Três políticos e intelectuais, Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, resolvem escrever uma série de 85 artigos e publicá-los em um jornal do estado de Nova Iorque, para convencer os cidadãos locais a aprovar a Constituição.

Depois de alguns anos, com a Constituição já devidamente aprovada, os artigos foram reunidos em um livro, intitulado “Os Federalistas“, que se tornaria um texto clássico do pensamento político.

E o que tudo isso tem a ver com “Esquadrão Suicida”? Já vamos chegar nessa parte.

 

EXT. CIDADE DE NOVA IORQUE – DIA (1788)

Em um dia frio de fevereiro, um cidadão nova-iorquino compra um exemplar de um jornal local, como o faz todos os dias. Nele, encontra um artigo assinado por um tal de “Publius“, seja lá quem for.

Logo no título, uma expressão chama a sua atenção: “freios e contra-pesos”. A estranheza vem do fato de se tratar de um texto sobre política, e não sobre máquinas.

“Para o Povo do Estado de Nova Iorque”, iniciava o artigo. Com uma clareza intrigante, o autor faz o seu argumento pela separação dos poderes do governo.

A história da humanidade, segundo o autor, mostra que as pessoas poderosas são frequentemente tomadas pela sua ganância e ambição.

“Se os homens fossem anjos”, argumenta, “não seriam necessários governos”.

E “se anjos governassem os homens”, continua, “nenhum controle externo ou interno sobre o governo seria necessário”.

Mas a humanidade não é governada por anjos, não é mesmo?

 

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INT. SALA DE CINEMA – NOITE (2016)

Entra o filme “Esquadrão Suicida”. Os vilões, sempre motivados a fazer o mal, concordam em ajudar a fazer o bem. Mas por que “diachos” eles fariam isso?

Foi a mesma pergunta que James Madison (o verdadeiro autor do artigo n.º 51, que falamos acima) se fez quanto à democracia: como evitar que os governantes eleitos não abusassem do seu poder, ao invés de servir à população?

Afinal, por que eles serviriam, ao invés de simplesmente usar o seu cargo para satisfazer as suas ambições pessoais?

No filme, são dois os motivos que fazem os vilões concordarem em ajudar: punição e interesse.

 

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Arlequina no filme Esquadrão Suicida

 

Primeiramente, quando os protagonistas perguntam por que eles concordariam em ajudar, a resposta é um tanto… brutal.

Caso não ajudassem, o “aplicativo matador” (nas palavras da Arlequina) faria com que eles se arrependessem imediatamente.

No campo não tão violento da democracia, punições também podem existir para garantir que todos fiquem na linha.

A maior e mais importante de todas são as eleições: governantes eleitos que não servirem à população podem perder o seu cargo e, com ele, todo o seu poder.

Um bom sistema judicial também permite outra forma de punição, garantindo que quem violar a lei sofrerá as consequências!

As leis e o público são, portanto, os “controles externos” mencionados por Hamilton.

Porém, quem assistiu ao filme sabe que, mesmo depois que a ameaça de punição deixou de existir, os vilões continuaram sua missão de derrotar a bruxa Magia. Por que?

A segunda motivação foi o seu interesse em derrotar Magia. Se não fizessem nada, ela destruiria a todos, inclusive aos próprios vilões e a todas as pessoas com as quais eles se importavam.

Assim, cumprir a missão deixou de ser apenas do interesse dos seus recrutadores e passou a ser interesse, também, dos membros do esquadrão.

Quando duas pessoas (ou grupos) compartilham o mesmo interesse, isso se chama “interesse mútuo“.

 

Fonte: Imdb
Cena do filme Esquadrão Suicida

 

Seguindo uma ideia parecida,  Hamilton defendeu o sistema defreios e contra-pesos“, para garantir que os governantes não caíssem em tentação.

A ideia do sistema é que, caso alguém comece a abusar do poder, outro alguém poderá impedi-lo.

Assim, o poder Legislativo fiscaliza o Executivo, que fiscaliza o Judiciário, que também fiscaliza tanto o Executivo, quanto o Legislativo, e é fiscalizado pelos dois.

Dessa forma, é do interesse mútuo de todos que cada um fique “no seu quadrado”.

Isso beneficia a sociedade em geral, pois evita a tirania (ou seja, o abuso de poder, que desrespeita os direitos dos cidadãos).

Quando esses abusos acontecem e ninguém é punido, isso provavelmente quer dizer que o sistema não está funcionando bem.

Entender o que é o sistema de freios e contra-pesos é entender, de maneira geral, por que a democracia é tão necessária para todos.

A democracia foi criada, acima de tudo, para proteger os direitos dos cidadãos. Mas, para isso, é necessário que os cidadãos também defendam e participem da democracia.

Vocês não acham? 😉

Este texto foi originalmente escrito por Rafael Paraíso!

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Haína Coelho
O que eu mais gosto de fazer é aprender. Por isso, apesar de a minha área acadêmica ser Ciência Política, estou sempre buscando novos aprendizados ou maneiras de aprofundar os assuntos que sei (cursos online, minha paixão). Tenho uma infinidade de hobbies, mas isso não significa que eu seja boa neles. Meus pais são professores, então educação sempre esteve na minha vida. Eu também amo passar conhecimento para que outras pessoas aprendam. Quando conheci o Politiquê?, que lida com educação E política, eu quis logo entrar! Fui embaixadora da Ação nas escolas, e me convidaram para ser membro do projeto. Eu trabalho com as coisas organizadas e fico nervosa se não estiverem assim (mas não olhem minha mesa), e disso era o que a equipe estava precisando. Hoje, não só ensino como aprendo com o Politiquê?, e sigo querendo que mais e mais jovens venham por esse caminho! :)

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